Não Olhe Para Baixo
Respirei fundo. O ar entrando nos meus pulmões era mais gelado do que eu estava acostumada.
Não olhe para baixo.
Repeti. Precisava forçar a minha mente.
Não olhe para baixo.
Continuei. Eu segurava o corrimão de metal à beira de um penhasco, frio como gelo tirado do freezer.
Não olhe para baixo.
Degrau por degrau. Eu só precisava subir. Ficar longe. O mais alto possível.
Não olhe para baixo.
Era um loop infernal.
Mas o que havia lá embaixo? Por que eu não podia olhar? Não faça perguntas cuja resposta você não quer saber, eu dizia a mim mesma.
Não olhe para baixo.
Mordi o lábio inferior para manter a concentração por meio da dor.
Não olhe para baixo.
A curiosidade ficava cada vez mais forte. Era como se houvesse vozes nos meus ouvidos.
Não olhe para baixo.
Tapei os ouvidos com as mãos, sentindo o contraste entre minha pele gelada e o calor das orelhas.
Não olhe para baixo.
Eu queria olhar. Meus olhos queriam virar para baixo e ver o que havia lá. Mas, se eu fizesse...
Não olhe para baixo.
Senti os pelos da nuca arrepiarem.
Eu olharia.
Não olhe para baixo.
Minha mente ficou em branco. As mãos escorregaram dos meus ouvidos. Parei de morder o lábio.
Tranquilidade.
Nada mais estava acontecendo.
Olhei para baixo.
Engoli em seco.
Não fui forte o suficiente.
Senti uma mão fria agarrar meu tornozelo.
Vi a altura desaparecer abaixo de mim.
Ela estava me puxando.
Fui arrastada para baixo.
Junto com eles.
Com aqueles que dominaram a Terra.
Com os mesmos que tinham olhos vermelhos e manchavam a neve de sangue.
Nunca olhe para baixo.
Porque, se olhar nos olhos deles...
Eles vêm te levar.

